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10:34 PM
Remexo na papelada virtual mas nada de novo me chega aos olhos. Ando sem tempo outra vez, desencontrando das pessoas e um pouco de mim mesma. Os textos não páram de brotar, mas têm morrido na praia dos caderninhos de anotação perdidos em fundos de bolsa.
Outro dia tive um encontro tão especial, insights demais e registro nenhum. Se ela passar por aqui, fico imaginando se vai achar graça, como eu achei, de termos ficado as duas a noite inteira com os celulares na mão, modelos iguais, para no final trocarmos apenas endereços de e-mail e não os respectivos números.
Mas tudo é como tinha de ser, ou ao menos eu tento me convencer disso.
De vez em quando me martela uma trilha sonora interna, músicas em geral muito datadinhas e empoeiradas pedindo para ser ouvidas. Hoje aqui na minha cabeça tem o Herbert Vianna no Morro da Urca e Uns Dias, direto da adolescência.
Acabo de receber um recado malcriado do meu Outlook Express. Do NOT send files by e-mail.
Oquei, eu vou me comportar. É que nem sempre é fácil.
enviado por Dani K.
5:05 PM
Quer (muito) mais? Passa aqui. Dica da Zel que os gatófilos que vivem por estas bandas vão amar.
E, por falar em gatos, descobri ainda agora que o Tuba enlouquece com aqueles barulhos dos joguinhos do celular (calma, crianças, eu só estava tentando descarregar a bateria até o fim antes de dar comida pro tamagochi como me mandaram fazer). O bicho fica miando como se estivesse diante de uma presa em potencial, ou pior, como se conversasse com os bips e tremidos do Nokia. Eu, hein.
enviado por Dani K.
10:54 AM
É que aqui não tem TV, vocês sabem.
Mas era sábado, eu fora de casa e tinha um aparelho ligado lá na novela da Globo. E lá estavam as moças loirinhas e namoradas da enquete do outro dia. Incenso, olhares, música, sorrisos. Tudo doce e meigo pra não ferir a sensibilidade do digníssimo telespectador. Eu, que não acompanho o romance, os capítulos nem nada disso, fiquei pensando em como é esdrúxula uma cena com um casal de amantes que não se toca. Não que fizesse questão de beijo de língua nem nada. Mas elas estão tomando banho juntas e uma não chega perto da outra. Para meus olhos sem TV, foi esquisito. Bonitinho porém estéril. Artificial.
Depois do comercial, marido e mulher num quarto. Aí pode toque, claro. Ele agarrando o braço dela aos gritos, depois batendo com raquetes de tênis. Mas entre um homem e uma mulher, como mandam os códigos da decência. Se eu estava sentindo falta dos toques, ali estavam eles. Full contact.
Então tá.
Apertei o botão do controle remoto me sentindo enjoada.
Ou sou eu que ando muito por fora, ou esse povo tá louco mesmo.
enviado por Dani K.
6:24 PM
E a resposta me chega pela caixa postal, em maiúsculas: melancolia é um vazio que cabe.
Que agora transborda, eu diria.
enviado por Dani K.
6:21 PM
Eu disse a ela (meio prometendo a mim mesma) que pretendia escritos ensolarados. Mas o azul que pintava a sexta-feira se acinzentou com a tarde, e fincando os cotovelos no mármore da janela eu assisto hipnotizada o antigo apartamento ser preparado para receber mais um morador. Eles pintam e repintam as paredes de branco, mas o descascado da veneziana continua por lá. Emoldurando talvez recordações demais para ficarem assim escancaradas sob meus olhos inconstantes.
Abrindo aquela mesma prancha vacilante de madeira, um dia eu vi os operários do lado de cá arrancando e levando embora a banheira antiga e lamentei sem saber ainda por quê.
Agora, esticando o corpo, vejo por uma fresta do basculante que cobriram também de branco umas últimas marcas que eu deixara no banheiro. Para valorizar o imóvel, talvez. Mas não trocaram as madeiras por alumínio e nem levaram as louças antigas. Ainda.
O sol volta aos poucos, eu sei. É que faltam ainda alguns dias para a primavera.
enviado por Dani K.
10:31 PM
E eis que na faina da escrita, descobri mais cedo que ao olhar do sábio Aurélio obcecado, que me soa tão seco e rascante e antipático, é nada menos que um atalho para desvairado, que desde sempre me seduziu e ultimamente mais ainda, depois de conhecer os desvarios de uma certa Patrícia.
E que, por outro lado, minha tão conhecida e confortável melancolia resvala para morbidez e para o campo temido da doença psiquiátrica.
Pensei e penso em palavras o dia todo, em suas caras, jeitos, sons. Por acaso ou nem tanto, fiz delas prisão, trabalho e fuga ao mesmo tempo. Como uma Emília eternamente no País da Gramática.
*a ilustração que eu queria aqui era outra, de uma edição anterior e que eu não achei online. Monteiro Lobato eu li quase todo nos livros do meu pai quando era criança e que moram hoje aqui na minha estante, devidamente herdados e à espera de mais uma geração que os desvende.
enviado por Dani K.
10:30 AM
Não foi o primeiro a chegar aos meus olhos, nem vai ser o último. De uns tempos para cá, eu encontro cada vez mais os blogs secretos. A muitos chego pela mão do próprio autor, que minha vocação para confidente só tem se confirmado no mundo internético. Em outros, esbarro sem querer. Mas tenho garimpado também. Ando meio obcecada.
Por suas histórias de amor vertiginosas, proibidas, pelo sexo revelado por inteiro de trás do anonimato, pela paixão derramada.
Eles são curtos, no geral. Muitos só têm um único post. Ou dois. Os cabeçalhos desatualizados são a marca, a bandeira melancólica espetada nessas garrafas lançadas a esmo no mar virtual. Ou a lápide. Porque há algo de mórbido no espectro de um amor que já não existe, também. Eu tenho lido todos com avidez, vasculhando os arquivos (quando há), me lambuzando nas confidências alheias. Que quase sempre estancam de sopetão, como que pinçadas da existência no meio do grande salto. 3 de abril de 2001, quarta-feira. Thursday, november 23th... Que catástrofe íntima terá congelado cada uma dessas vidas, mumificando o beijo da noite passada, a briga, o bilhete?
Li outro dia que quem abandona um blog é como se saísse às pressas largando a porta aberta. Mas para onde? Para onde somem as paixões, os arroubos? Em poucos há um ponto final lacônico, uma frase seca. Acabou. Finito. A porta batida na cara, às vezes mal escondendo a mágoa que mancha o texto. A maioria simplesmente estanca, me deixando a tarefa de traçar mentalmente o desenrolar da história, de buscar nas entrelinhas o material para um desfecho possível. O que leio me enche de uma quase-tristeza, feito descobrir no meio de uma arrumação banal, sem querer, a foto sorridente e meio amarelada do primeiro namorado entre papéis antigos. Mas talvez seja só a minha veia melancólica pulsando mais forte.
enviado por Dani K.
9:22 AM
As grandes ironias da vida quase sempre escorregam perigosamente para o clichê rasgado. É óbvio que eu já havia pensado nisso quando tentava resgatar o último dos copos limpos no caos da cozinha para tomar uma água ao acordar. E é óbvio que aconteceu. Passou um furacão pela minha casa no fim de semana. E a empregada que nunca falta acabou de ligar avisando que não vem.
Eu tranquei a porta do escritório e larguei os escombros para os gatos e as formigas. Espero que tudo sobreviva. E que não apareçam (muitas) novas formas de vida entre as panelas empilhadas na pia. Tenho muito trabalho, hoje. E a pele vestida pelo avesso e os olhos ameaçando transbordar a qualquer momento. É segunda-feira. Embora tenha parado a chuva, o céu por aqui continua em tons de cinza.
enviado por Dani K.
10:27 PM
A exemplo dela, lá vou eu também de dreamlog: estávamos numa casa com portas onde só se passava espremendo o corpo. Nos cômodos estreitos, labirínticos, banheiras cheias com águas coloridas e casais mergulhados por inteiro, sem as cabeças de fora. Havia gente conhecida, uns rostos bem constantes no meu inconsciente embora ausentes da vida real há tempos. Conversas todas muito importantes, que eu lembrava ao acordar. E um gramado na frente da casa, bem íngreme.
Depois tudo foi se desvanecendo.
Agora é sonho misturado com resto de brigadeiro e música estridente de festa de criança. A título de lembrancinha, um quadro-negro e giz para cada convidado. A Lia desenhou o papai pegando onda. Que foi apagado pela chuva na volta para casa.
enviado por Dani K.
11:26 AM
Poesia, poesia, poesia.
Três vezes, como convém a toda boa invocação.
E eu? Eu fico aqui em silêncio, catando os cacos e tentando (mais uma vez) aprender.
enviado por Dani K.
12:21 PM
Existem horas mortas e outras que transbordam. Entre ontem e hoje, um dia inteiro nonstop de trabalho, algumas linhas por escrito, dois telefonemas, uma caipirinha e meia (sem açúcar), algumas risadas, três olhares safados, um expresso com brigadeiro, mais duas horas e tanto tentando transformar minha desorganização em eficiência. Telefone de novo. Caixa postal. Madrugada. Corpo muito cansado e cabeça elétrica demais para dormir.
Hoje criei por aqui uma pasta de correio elegante, tantas as sutilezas e delícias que têm me chegado aos olhos. Tenho um sono que parece infindável e mais uma vez sol e arco-íris invadindo a janela da sala. Acabo de receber uma boa e inesperada notícia, abro mentalmente a agenda razoavelmente atulhada de tarefas e vontade de quase nada além de mar, bom livro e linhas e mais linhas de texto (provavelmente) sem sentido.
A gata preta dorme enroscada no meu colo. Penso que talvez eu esteja mais para lá do que pra cá. O tempo ruge. Eu desligo o despertador, viro pro lado e cochilo mais um pouco.
enviado por Dani K.
6:32 AM
Branco, com matizes de rosa e laranja.
Perfeito, perfeito. Não sou muito dada a testes internéticos (talvez por ter tomado uma overdose deles quando vinham nas revistas da adolescência me fazendo marcar xizinhos febrilmente e exercitar minha fraca matemática para calcular resultados), mas vendo ele em preto e ela feliz irradiando amarelo, fiquei curiosa.
E gostei. Branco. Não por acaso foi minha cor da noite de sábado. Vão lá e me contem.
enviado por Dani K.
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